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Fapesc nega verba a evento de pesquisadores negros por ter “representantes de uma só raça” (Diário Catarinense)

07/07/2017– 12h57min –  Atualizada em 07/07/2017– 16h44min
Fapesc nega verba a evento de pesquisadores negros por ter

Foto: Copene Sul / Reprodução

“É um momento muito importante, que congrega diferentes áreas de pesquisa, universidades, pesquisadores e pesquisadoras que vão trazer elementos de como a população negra do Sul do Brasil tem participado do desenvolvimento, do patrimônio e da memória da região Sul. Vai ser um prazer receber a todos e a todas que se interessam na temática das relações raciais.”

É assim que, em uma mensagem em vídeo, a professora do Centro de Ciências da Educação (CED) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Joana Célia dos Passos convida o público a participar do Congresso de Pesquisadores Negros (Copene Sul), que começa na próxima segunda-feira, 10, em Florianópolis. No entanto, a terceira edição do evento promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros teve financiamento negado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação em Santa Catarina (Fapesc), que alegou que “da forma como está formatado, sobretudo, a programação envolve exclusivamente (ou quase) representantes de uma só raça”, conforme e-mail enviado à comissão organizadora (veja abaixo).

Para realizar o III Copene Sul na UFSC, foram solicitados, via chamada pública (Proeventos 2017/2018), R$ 15 mil para cobrir custos com hospedagem (R$ 9 mil) e alimentação (R$ 6 mil) de 15 palestrantes ao longo dos quatro dias de evento. A nota 8,79 dada pela comissão que avalia cada pedido foi insuficiente para garantir a verba ao evento. Foram evidenciados “pontos fortes” e “pontos fracos” como justificativas para a decisão. Pesaram positivamente o fato de esta ser a terceira edição do encontro e, portanto, tratar-se de “equipe experiente”, além de haver uma “temática definida”. Contudo, a análise negativa preponderou. Mesmo reconhecendo a relevância, a fundação indica que o congresso “deveria ser mais abrangente e integrar outros segmentos acadêmicos que estudam a cultura afro-brasileira e afro-descente”. Também foi apontada uma questão relacionada ao orçamento: “fortemente baseado em refeição”.

Ao contrário do que indica a Fapesc, a programação do Copene Sul não está composta exclusivamente de pessoas negras, conforme é possível observar no site do evento, se considerada somente a ideia biológica (de raça vinculada à cor de pele, por exemplo). A situação motivou a comissão organizadora a mover um recurso e solicitar esclarecimentos à fundação em 25 de maio. Quase um mês depois, em 20 de junho, a Fapesc retornou, mas manteve o posicionamento inicial: “A Comissão entende que não há fatos novos que propiciem alteração do parecer emitido anteriormente”. Dado o impasse, a organização do evento decidiu solicitar uma reunião presencial para apresentar a ABPN, o Copene Sul e as “contribuições de seus pesquisadores/as para o avanço da ciência em nosso Estado”.

“No Sul do Brasil, são em sua maioria pesquisadores negros que se dedicam a investigar as questões raciais, com raras exceções. Por esse motivo, a programação do evento tem em sua maioria intelectuais negros e negras que são referência em suas áreas de pesquisa”, justificou a comissão organizadora em carta enviada à presidência da Fapesc.

A indefinição se manteve e, agora, o caso foi protocolado pela organização do evento no Ministério Público Federal (MPF). O evento acontecerá normalmente a partir de apoio da Capes, UFSC (Secarte, PRAE, SAAD e PPGE), Udesc e Sindprev, além das taxas de inscrições dos participantes.

E-mail enviado pela Fapesc à organização do Copene SulFoto: Reprodução / Reprodução

“Racismo institucionalizado”

Em entrevista ao Diário Catarinense, a professora Joana dos Passos defende que esse é um exemplo claro de como o racismo está institucionalizado na Fapesc, que é a principal fundação de fomento à pesquisa em SC.

— Quando pedimos a reunião, não foi para solicitar alteração do parecer. Era para que a Fapesc compreendesse o que estava fazendo ao assumir para si e tornar público no meu e-mail aquele parecer. Apresentamos o que é a associação e no que consiste o congresso, mas há um despreparo das pessoas nessas funções do poder público em reconhecer que o Estado de SC é formado por uma multiplicidade de identidades e pertencimentos. Eles sugeriram trocar a palavra “raça”, por “segmento”, mas isso não resolve o racismo institucional que está materializado — argumenta.

A presidente da organização do Copene Sul também questionou o critério de avaliação utilizado que, segundo ela, não se repete em outras proposições feitas à agência de fomento estadual, já que existem eventos cuja programação é composta somente por pessoas brancas.

— Nós fizemos um levantamento dos projetos financiados pela Fapesc e não encontramos esse mesmo critério. Propomos um edital específico para pesquisadores negros, negras e indígenas para fomentar eventos e pesquisas com esse recorte, porque acreditamos que essa é uma forma de trabalhar ativamente para a superação do racismo — disse.

O que diz a Fapesc

A Fapesc defende-se das acusações de racismo feitas nas redes sociais a partir do compartilhamento da nota de repúdio do Centro de Ciências da Educação da UFSC sobre o caso (veja abaixo). Em comunicado enviado ao Diário Catarinense, a fundação diz que, apesar da limitação orçamentária de 2016, apoiou a realização de 162 eventos técnicos científicos. Fez questão de destacar alguns deles, que evidenciam a temática racial: Encontro Estadual de História da Associação Nacional de História (de 7 a 10 de junho de 2016, em Chapecó); Jornada de Estudo em História da África (3 de junho de 2016, em Florianópolis); o Seminário Educação, Relações Raciais e Multiculturalismo (2 a 5 de maio de 2016, em Florianópolis); e Educação e cidadania na perspectiva étnico-racial (10 a 30 de junho de 2016, em Chapecó), além de cartilha e e-book sobre haitianos no Estado.

Especificamente sobre o Copene Sul, a Fapesc diz que “repudia especialmente o racismo e lamenta que a ele tenha sido associada, injustamente, por conta de nota veiculada em redes sociais dia 06/07/2017 [confira abaixo]”.

Além disso, a fundação disse que “não reprova nem desmerece quem não teve acesso a seus parcos recursos. A proposta de evento concorreu com 87 outras – o total demandado beirava R$ 1,5 milhão. Como o programa Proeventos contava apenas com R$ 686 mil naquele momento (…), a fundação conduziu rigorosamente o processo seletivo mediante pareceres de consultores ad hoc que avaliaram os mais variados aspectos (…) e conseguiu destinar recursos a 50 eventos. Lamentavelmente, a proposta do III Congresso de Pesquisadoras e Pesquisadores Negros do Sul do Brasil não obteve a nota suficiente para receber o apoio, apesar da importância de sua temática.”

Nota do CED compartilhada nas redes sociaisFoto: Reprodução / Facebook
Fonte: DC
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Um bom exemplo do social-darwinismo presente na sociedade brasileira

Captura de Tela 2015-09-22 às 10.09.06 Vídeo ao final…..

O Brasil é o país em que a teoria do Darwinismo Social é o exemplo mais bem sucedido no mundo. Em nenhum outro lugar do planeta fomos tão eficientes em aplicar os ensinos de Gobineau & Cia.

Sobre isso vale a pena ler A Ralé Brasileira: quem é e como vive”, de Jessé Souza.

Sugiro também o texto do Daniel Moraes, em que explica a teoria do darwinismo social e sua aplicação nas Américas: “A América para os Euro-americanos: exclusão racialista na formação identitária dos estados nacionais da américa hispânica e estados unidos”. In: José Luiz Quadros de Magalhães (org.). Direito à Diversidade e o Estado Plurinacional. Belo Horizonte: Arraes, 2012, p. 47-61.

Aqui em vídeo:

 

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Professor promove debate sobre homofobia usando literatura

Educar para conviver

 

Sem políticas de promoção da diversidade e combate ao preconceito contra homossexuais, a escola torna-se palco de intolerância e homofobia. Foto: Evaristo Sa/AFP

 

Convivência, respeito às diferenças e à diversidade são temas recorrentes nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura dos alunos do 8º e 9º ano da Escola Esta­dual Frei José Maria Audrin. O professor Rubenilson Araújo, 37 anos, discute questões de gênero e diversidade sexual  com obras literárias, imagens e jornais. O objetivo é enfrentar a homofobia, o preconceito contra homossexuais. “Encontramos ainda muito preconceito. A escola está estagnada, não sabe lidar com os alunos homossexuais. Por conta do ambiente hostil, a maior parte deles acaba saindo”, critica o educador, que atua na rede pública de Porto Nacional, em Tocantins.

O educador fala por experiência própria. Homossexual, sofria com atitudes preconceituosas por parte dos colegas e dos professores em seu tempo de escola. “A minha vida foi marcada pela discriminação. Inúmeras vezes eu cheguei a fazer xixi na sala de aula porque os meninos me batiam se eu saísse da classe”, lembra. Dos professores, recebia indiferença ou simplesmente a ordem: “Seja homem!”

Histórias como as de Rubenilson ainda são realidade. Promovida pela Unesco em 2004 entre alunos brasileiros dos ensinos Fundamental e Médio, a pesquisa Juventude e ­Sexualidade revelou que um em cada quatro estudantes não gostaria de ter um colega de classe homossexual. Outra pesquisa realizada pelo órgão indica o preconceito também entre os educadoresDe acordo com O Perfil dos Professores Brasileiros, 59,7% dos docentes acreditam ser “inadmissível” uma pessoa ter experiências homossexuais.

Publicada em 2009, a pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil – Intolerância e Respeito às Diferenças Sexuais também examina a questão da discriminação em razão da orientação sexual. Um dado salta aos olhos: a escolaridade desponta como o fator mais determinante na diminuição da homofobia. Segundo a pesquisa, enquanto metade dos brasileiros que nunca frequentaram a escola (52%) apresenta comportamentos homofóbicos, apenas 10% daqueles com Ensino Superior manifestam o mesmo. Nenhuma das outras variáveis – como idade, renda ou religião – se mostrou um influenciador tão marcante.

Segundo o sociólogo e coordenador da pesquisa, Gustavo Venturi, várias hipóteses tentam explicar o porquê de a escola ser tão determinante para a diminuição do comportamento homofóbico. Desde os anos 1990, os parâmetros curriculares atuam como uma espécie de filtro sobre os conteúdos dos livros didáticos, que não podem apresentar expressões ou personagens racistas, homofóbicos ou misóginos (com conteúdo negativo ou de aversão às mulheres). Além disso, por ser um espaço de socialização mais amplo do que a família, a escola permite uma convivência maior com a diversidade. “Está demonstrado que a convivência com pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) provoca uma diminuição do preconceito. Ao conhecer de perto um gay, a pessoa acaba desmontando a imagem preconceituosa.”

“A escola é o espaço de formação de cidadania mais importante nas sociedades atuais”, afirma Marco Aurélio Máximo Prado, professor de psicologia da UFMG e pesquisador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH). Desde 2008, Prado é o coordenador-geral do Educação sem Homofobia, projeto de capacitação de professores sobre o tema que acontece em Minas ­Gerais.

Omissão

No entanto, o espaço de convívio também pode ser o de manifestação de preconceitos. Na ausência de políticas e propostas para lidar com esse tipo de conflito, o resultado é o efeito inverso, expresso nas piadas, no bullying e até na violência. No caso dos livros didáticos, ao mesmo tempo que não há conceitos discriminatórios expressos nas obras, também não há exemplos de diversidade sexual.

O ambiente escolar hostil para as populações LGBT foi captado pela pesquisa qualitativa realizada pela ONG Reprolatina em 2009. Uma investigação em 11 capitais brasileiras revelou que evasão escolar, tristeza, isolamento, depressão e até casos de suicídio são observados como consequência de uma escola homofóbica. Apesar de constatar a existência do preconceito, a pesquisa chegou à conclusão de que esses alunos são invisíveis para o resto da escola, o que acaba por determinar o tratamento dado à questão da homofobia. Em muitos casos, ela é minimizada ou naturalizada, geralmente expressa em brincadeiras ou piadas.  “Homofobia” apareceu como outro termo pouco familiar para os professores. A despeito das práticas de violência homofóbica relatadas na pesquisa em detalhes, muitos não conheciam o termo e nunca tinham pensado ou falado sobre o tema.

Fora dos muros da escola, a violência persiste. Levantamento realizado em 2012 com 1.217 homossexuais da capital paulista revelou que 70% já sofreram algum tipo de agressão. Segundo o estudo, feito pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, 62% dos entrevistados relataram agressões verbais, 15% agressões físicas e outros 6%, violência sexual. De acordo com a Secretaria de Direitos Humanos, em 2011 foram registradas 1.259 denúncias de violência contra gays no Brasil. Nas contas do Grupo Gay da Bahia (GGB), pelo menos 266 homossexuais foram vítimas de homicídio no mesmo ano no País.

Para a educadora sexual e diretora do Instituto Kaplan, Maria Helena Vilela, a escola não está preparada e ainda sente dificuldade na hora de discutir o tema. “Ela se sente perdida, porque, na verdade, não aceita a homossexualidade como algo natural”, afirma. Outro problema é a confusão entre aceitação e apologia. Segundo a educadora sexual, muitos professores e escolas ainda acreditam que, ao aceitar a orientação sexual de um aluno, estariam incentivando seu comportamento.

Para Marco Prado, coordenador do projeto Educação sem Homofobia, não existe idade certa para começar a trabalhar diversidade e combate à homofobia em sala de aula. “Vai depender das demandas que o professor receber”, explica. “Criamos, por exemplo, um quebra-cabeça para crianças em que se colocam essas questões, de modo a construir uma roda de conversa”, exemplifica. Em outro projeto de intervenção elaborado durante o curso, batizado de Livro Fora do Armário, uma professora da Educação Infantil criou uma biblioteca específica sobre o tema da diversidade para as crianças.

Segundo Prado, a falta de informação geral sobre a sexualidade é o principal vilão no combate à homofobia e ao preconceito. Dentro do ambiente escolar, as aulas de educação sexual geralmente se voltam apenas para o aspecto biológico, com foco na prevenção de doenças e da gravidez.

O papel do professor

Além da desinformação, os professores também sentem muita insegurança na hora de agir. Como intervir, o que fazer e como negociar institucionalmente a exploração do tema são questionamentos levantados pelos educadores durante o curso de capacitação ministrado pela UFMG.

“A formação dos professores é precária do ponto de vista dessa discussão e as escolas geralmente têm pouco apoio das secretarias para criar um projeto mais direcionado. Além disso, muitas escolas públicas sofrem forte intervenção religiosa, o que acaba dificultando a exploração em profundidade desses temas. Todos os professores relataram questões ligadas à orientação sexual em sala de aula, como brincadeiras ou humilhações.” Na opinião de Prado, é preciso empoderar o professor para que ele possa pensar melhor em como agir diante desses casos. “Quando ele não faz nada, acaba sendo cúmplice.”

Para Maria Helena Vilela, do Instituto Kaplan, muitas vezes uma situação de homofobia pode ser o ponto de partida para o professor estender a discussão para o resto da turma. O primeiro ponto é o professor exigir respeito e também respeitar ele mesmo o aluno LGBT. “Perguntas como ‘por que você está brincando?’ e ‘o que existe nessa brincadeira?’ ajudam a desmontar o preconceito”, conta ela.

Além das discussões, jogos, brincadeiras e dinâmicas de grupos podem ajudar a trazer à tona o debate a respeito da diversidade sexual. “De forma geral, minha sugestão é que a escola abra essa temática, discuta com os alunos e ensine sobre a construção da sexua­lidade. Só entendendo como as pessoas se constroem sexualmente é possível aceitar o outro”, defende Maria Helena.

Discriminalização naturalizada

Realizada em 2009 pela Fundação Perseu Abramo em parceria com a alemã Rosa Luxemburg Stiftung, a pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil  revela que 26% dos entrevistados admitiram nutrir preconceito contra gays, 27% contra lésbicas e bissexuais 
e 28% contra transexuais.

Surpreende, na visão do coordenador do estudo, Gustavo Venturi, a naturalização do preconceito. Ele cita uma pesquisa feita sobre discriminação racial em que apenas 4% admitiram preconceito contra negros. “O fato de que cerca de um quarto a um terço da população brasileira diga com naturalidade que tem preconceito contra os LGBT mostra a não aceitação em nossa sociedade”, analisa. A pesquisa também procurou investigar o preconceito velado: 54% dos entrevistados manifestaram preconceito classificado como leve.  Participaram do estudo 2.014 pessoas em 150 municípios de todo o Brasil.

 

Fonte: Carta Capital

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