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A questão do casamento gay no centro da política francesa

from paris with love

O arco-íris no centro da política

 

Para sociólogo francês, a bandeira do ‘casamento igualitário’ – já hasteada em 14 países – transcendeu o universo das minorias e assumiu a vanguarda na transformação da sociedade

Ivan Marsiglia – O Estado de S.Paulo

Tão logo foi ratificado pelo Parlamento da França na terça-feira, o projeto que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais homossexuais desencadeou protestos violentos. Em Paris, manifestantes atiraram garrafas, latas e pedaços de metal na polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e prendeu 12 pessoas. Os distúrbios foram ainda mais violentos em Lyon, no centro-oeste do pais, onde 44 foram detidos.

Promessa de campanha do presidente François Hollande, eleito pelo Partido Socialista em maio de 2012, o projeto enfrentou resistência da Igreja Católica francesa, da União pelo Movimento Popular, legenda do ex-presidente Nicolas Sarkozy, e da Frente Nacional, de extrema direita. A votação dividida na Assembleia Nacional – 331 votos à favor e 225 contra – já prenunciava a situação da causa do “casamento igualitário”, como preferem seus defensores, não só na França, mas no mundo: um cenário de vitórias sucessivas, quase sempre apertadas. Já são 14 os países que adotaram legislação semelhante, na maioria democracias avançadas como Holanda, Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia, Canadá, Bélgica, Nova Zelândia, Portugal e Espanha, mas também Africa do Sul, Argentina e Uruguai. No Brasil, embora o Supremo Tribunal Federal tenha reconhecido, em maio de 2011, a união homoafetiva estável, a decisão não é equivalente a uma lei sobre o assunto.

Para o sociólogo francês Éric Fassin, a bandeira da igualdade de direitos para os homossexuais adquiriu centralidade única na política contemporânea:

“Hoje, a principal divisão ideológica entre a direita e a esquerda na França se dá na questão do casamento igualitário” [PENA QUE A ESQUERDA NO (A FATIA QUE ESTÁ NO PODER) BRASIL SEJA, JUSTAMENTE, A QUE É CONTRA O CASAMENTO IGUALITÁRIO….]

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Paris VIII, Fassin se dedica a pesquisar a interface política entre as questões sexuais e raciais e afirma que o mito de uma “democracia sexual” no Ocidente serviu muitas vezes para justificar a xenofobia – travestida de defesa dos ‘nossos’ valores contra os ‘deles’. Autor, entre outros livros não traduzidos no Brasil, de Liberdade, Igualdade, Sexualidade: Atualidade Política das Questões Sexuais (2004) e A Inversão da Questão Homossexual (2008), o professor afirma que a empedernida reação à extensão de direitos às minorias acabou por revelar “a cultura hétero que organiza toda nossa vida cotidiana e até as disciplinas que estudam a sociedade, como a sociologia da família ou a antropologia do parentesco”.

Na entrevista a seguir, Éric Fassin explica por que os religiosos desta vez não foram os responsáveis pela polêmica, mas pegaram carona nela; afirma que a adoção de crianças por casais gays incomoda por enterrar de vez “a ilusão de que a filiação é fundada biologicamente”, o que põe em risco certa concepção arcaica de nação; e diz que rever as concepções “naturais” que temos sobre o casamento, a família e a filiação pode ajudar na necessária reinvenção de nossas sociedades.

. Por que mesmo na França, com sua longa tradição na defesa dos direitos humanos, o tema do casamento gay é tão sensível?

. Antes de qualquer coisa, há por trás disso uma lógica política. A questão do casamento igualitário é, hoje, a principal diferença entre a direita e a esquerda na França. Todo o resto, de Nicolas Sarkozy a François Hollande, é continuidade: seja em se tratando de economia, nas proposições de austeridade e competitividade tributárias da mesma política neoliberal, seja no debate sobre a imigração – a expulsão de imigrantes não diminuiu no atual governo e a perseguição cotidiana aos ciganos inclusive se intensificou. Foi sobre o casamento, então, que se fixou a clivagem ideológica. Os protestos aos quais estamos assistindo se explicam pelo fato de que todas as forças se concentram, num ambiente no resto consensual, nessa única batalha. Veja que até mesmo em matéria de laicidade, já não há diferença entre os diversos partidos políticos: Hollande propõe hoje uma lei contra o uso do véu islâmico exatamente como o fizeram Sarkozy em 2010 e Jacques Chirac em 2004…

. Mas os protestos ocorridos essa semana não aparentam ter origem exclusivamente religiosa, certo?

. Na França, a religião não é o motor primeiro da hostilidade ao tema da igualdade de direitos. É algo que não entendemos bem 15 anos atrás, contra o PaCS (Pacto Civil de Solidariedade, votado em 1999 durante o governo Lionel Jospin, que previa uma parceria contratual entre duas pessoas maiores, independente do sexo, que inspirou o debate sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil). A Igreja, na verdade, se aproveita dessa polêmica para existir politicamente. E Sarkozy soube preparar bem o terreno com sua política de identidade nacional, que repousava sobre duas heranças: a laica, contra “eles”, os outros, estrangeiros, etc., e a cristã, por “nós”, nossos valores. Era um ato de legitimação política da Igreja. Em retribuição, o lobby religioso dá hoje sua bênção à oposição.

. O que incomoda mais, a questão reprodutiva, as relações homossexuais em si ou a adoção de crianças por casais do mesmo sexo?

. Nos EUA, o casamento em si é que está no coração da controvérsia. Já na França, é a filiação, o acesso à adoção e à assistência médica para as crianças. Por que isso? Ocorre que na França a filiação define, por sua vez, a família e a nacionalidade. Estendê-la aos homossexuais significa desnaturalizá-la de vez, dissipando a ilusão de que a filiação é fundada biologicamente. Do lado inverso, naturalizar a filiação significa dar um fundamento biológico à ideia de nação. Ainda hoje fala-se muito na França de “franceses de estirpe” em oposição a “franceses de origem estrangeira”. E naturalizar a filiação é atribuir a ela um caráter racista, que distingue dois tipos de cidadãos, os “naturais” e os de raízes estrangeiras.

. Logo após a votação no Senado, o antigo primeiro ministro Jean-Pierre Raffarin acusou os defensores do casamento gay de provocar uma ‘crise social’ e promover ‘uma injustiça contra as crianças, que não conhecerão nem papai nem mamãe’. O que achou dessa declaração?

. De um lado, ela joga com o medo, a retórica reacionária de que permitir a adoção por casais gays é entrar em “terreno escorregadio”. Por outro lado, está aí a reivindicação de uma visão biologizante da filiação. “Nem papai, nem mamãe”? A única filiação então é a dos genitores? Como fica isso então em relação aos filhos adotivos? No caso da adoção, os genitores não têm papel na filiação, sejam os pais adotivos de sexos diferentes ou não. A frase de Raffarin é uma negação do direito. Não contente em fazer a defesa de “verdades naturais”, biológicas, pretende que elas produzam verdades sociais. Vê-se aqui o quão atual é o debate sobre o casamento igualitário, e quanto a resistência a ele significa uma resistência à noção de igualdade e um retorno ao determinismo biológico.

. Em um artigo de 2012, o sr. se perguntava se a oposição ao casamento gay seria, em si, uma forma de homofobia. Como responderia a essa questão hoje?

. Os que se opõem ao casamento igualitário fazem uso da ideia de natureza, o que é contraditório, uma vez que tanto o casamento quanto a família são instituições sociais. Falar em “instituição natural” é uma contradição em termos. Portanto, julgar que a extensão do casamento aos homossexuais não seria natural é o mesmo que dizer que a homossexualidade vai contra a natureza. Na época dos primeiros debates sobre o PaCS era possível posicionar-se de maneira hostil ao casamento sem ser homofóbico – mas isso porque não havíamos refletido suficientemente sobre isso. Hoje, todo o mundo já debateu todos os argumentos. Recusar a igualdade de direitos é optar conscientemente pela homofobia política. Veja que interessante: tanto na França como nos EUA pouco menos da metade da população é contrária ao casamento igualitário. Entre os americanos, essa proporção é praticamente a mesma dos que se declaram homofóbicos. Na França, ao contrário, a se supor pelas pesquisas, pouquíssimos se dizem homofóbicos. É um dado revelador da hipocrisia francesa.

. Por falar em pesquisas, no início dessa semana só 25% dos franceses se declaravam satisfeitos com o governo Hollande. A polêmica afetou sua popularidade?

. O casamento igualitário não é a causa da impopularidade do presidente da república, até porque os eleitores de esquerda são majoritariamente favoráveis. Quanto aos de direita, hostis ao tema, de todo modo não apoiariam Hollande. O que explica sua rejeição é o fato de que a volta ao poder dos socialistas não significou uma verdadeira alternância. Lembremo-nos de que o slogan da campanha Hollande era le changement c’est maintenant (a mudança é agora). A defesa do casamento igualitário é, por isso, o único fator que limita sua impopularidade – porque aí, sim, houve mudança. Há quem diga, inclusive, que sua defesa da nova lei serve apenas para fazer os eleitores de esquerda esquecerem as renúncias que fez na volta ao poder. É um fato, mas prefiro que o governo distraia os franceses com a questão do casamento do que expulsando imigrantes ou perseguindo ciganos.

. Além da França, outros 14 países aprovaram leis semelhantes, inclusive nossos vizinhos, a Argentina e o Uruguai. Parece haver uma movimentação internacional em torno do tema. Por que o casamento gay virou a principal bandeira de seus ativistas, mais importante até que as leis anti-homofobia?

. No primeiro país, a Holanda, a legalização data de 2001 e, de lá para cá, a multiplicação tem sido bastante rápida. São oito países na Europa, mas também na América do Norte e do Sul, além da Oceania. Isso ocorreu porque os ativistas gays se apoiaram em princípios democráticos como a igualdade de direitos. É uma eficácia ainda mais impressionante quando se leva em conta a enormidade de lutas progressistas que fracassaram nos últimos anos. E mais: trata-se de um desafio enorme simbolicamente, daí a resistência feroz que enfrenta por toda a parte. Outro fator que contribui para sua implementação é o fato de ela não custar quase nada – de certa maneira, portanto, é uma reivindicação compatível com as políticas neoliberais. Ainda que o exemplo da direita francesa, partidária do neoliberalismo, tenha se aliado aos conservadores religiosos para combatê-la.

. Em A Inversão da Questão Homossexual o sr. diz que os debates em torno da causa marcam uma ruptura histórica: após um século de estudos da psicanálise, da antropologia e da sociologia sobre a homossexualidade, atualmente é a política lésbica e gay que põe em questão essas disciplinas e a própria sociedade. Por quê?

. Veja o exemplo francês: é a homofobia que se esconde hoje em dia, não a homossexualidade. Nos EUA, o humorista Steven Colbert chegou a dizer: “Na França, aquele pessoal com cartazes cor-de-rosa dançando ao som do grupo Abba são os manifestantes antigays!” A homofobia se travestiu: em vez de deixar sua violência sair do armário, percebeu que já tinha perdido a batalha. Dizendo de outra maneira, a questão hoje não é mais “como alguém pode ser homossexual?”, mas “como alguém pode ser homofóbico?”. As reivindicações gays revelaram o que ninguém percebia em nossa sociedade: é a cultura hétero que organiza toda nossa vida cotidiana, a família e até as disciplinas que estudam a sociedade, como a sociologia da família ou a antropologia do parentesco. O que não conseguíamos ser capazes de perceber, de pensar, passa rapidamente a ser visível, “pensável”. Tudo isso que nos parecia “natural” revela-se como mera convenção, arbitrária e portanto modificável.

. De que maneira tal mudança de parâmetros afeta questões como a imigração e a xenofobia, como o sr. chegou a dizer?

. Durante os anos 2000, políticos xenófobos e racistas buscaram legitimar sua voz nas sociedades ocidentais pela instrumentalização do que chamo de “democracia sexual”: dizendo que o sexismo e a homofobia eram mazelas ‘deles’ e não ‘nossas’, os espíritos libertos. Assim, falava-se o tempo todo na Europa sobre como o véu islâmico é um símbolo do patriarcado atrasado deles, assim como casamentos forçados ou a poligamia. Insistíamos o tempo todo que tais violências contra mulheres e homossexuais estavam restritas aos bairros de imigrantes ou estrangeiros. Ora, fazer esse discurso hoje em dia ficou mais difícil. Tanto que a heroína do movimento anticasamento igualitário, Frigide Barjot, foi ao congresso da União das Organizações Islâmicas da França buscar o apoio ‘deles’ para a causa! E já provoca inquietação em alguns imaginar qual será o resultado dessa mudança na retórica conservadora. Ou seja, como será reposta a oposição entre ‘nós’ e ‘eles’ sem o pretexto da democracia sexual.

. Em um texto sobre a obra de Michel Foucault, o sr. afirma que não se trata de pensar a invenção de uma cultura gay em torno do casamento e da família, mas de ‘uma cultura inventiva a partir da atualização homossexual dessas instituições’. Tal transformação é possível? Qual seria o resultado dela?

. Ela é a mais difícil, mas também a mais necessária, em minha opinião. Na França, como teria sido absurdo denunciar o casamento igualitário como um projeto de normalização da homossexualidade, o argumento que se usou contra, tanto à direita como à esquerda, foi o da defesa da “ordem simbólica”. Mas uma vez vencida a batalha, é preciso enfrentar a questão. E aproveitar este momento para questionar de fato as noções de casal, de família, casamento e filiação.Se em vez de presumir que já sabemos do que estamos falando, como se fosse algo óbvio, tomarmos consciência de que cabe a nós dar-lhes sentido, abre-se um espaço. Se não um espaço de reinvenção radical, pelo menos de um pouco de bricolagem, de improvisação. Já vimos, em outras ocasiões, como o divórcio, a possibilidade de outros casamentos engendraram novas experiências sociais. Por que não poderia ocorrer novamente, a partir da abertura do casamento e da família aos casais do mesmo sexo?

Fonte: Luiz Nassif

Ver também:  Programa Entre Aspas debate aprovação do casamento gay na França

E:

 

 

 

 

 

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PADRE JESUÍTA, DOUTOR EM HISTÓRIA, FALA SOBRE HOMOSSEXUALIDADE

Obs.: Luis Correia Lima – Padre jesuíta, graduado em Filosofia e Teologia, Doutor em História, Professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio e membro do seu programa de pós-graduação.  Currículo Lattes 

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Homofobia, o novo muro que divide a Europa

PolôniaHungriaRepública Tcheca: uma geração após o fim do império do mal, aumentam as discriminações e hostilidades contra as comunidades gays, alimentadas por minorias populistas que incitam o ódio para obter consensos. No silêncio das instituições europeias e muitas vezes também da Igreja.

A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 29-01-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Varsóvia

Se você caminhar pela Nowy Swiat ou pela Krakowskie Przedmiesce, no belo centro histórico de Varsóvia, é normal ver jovens gays ou lésbicas se beijando ou de mãos dadas, mas, mais a leste, nos vilarejos e na zona rural daPolônia profunda, feudos de skinheads, católicos integralistas e nacional-populistas de Kaczynski, “eles” têm medo de caminhar sozinhos à noite.

Em Budapeste, a Corte Constitucional, em um dos últimos desafios a Orbán, rejeitou a sua lei sobre a família que reconhecia somente a união consagrada entre um homem e uma mulher para criar filhos. No entanto, os ultraviolentos da Guarda Magyar odeiam os homossexuais, assim como os ciganos e os judeus. Ameaçam e provocam, mesmo sendo teoricamente ilegais: “Se até mesmo as bichas imundas podem se manifestar, o direito de marchar também é nosso”.

Até mesmo na civilizadíssima Praga, as leis são mais avançadas, mas as celebridades que optaram por sair do armário são raras, e o presidente cessante, o eurocético Vaclav Klaus, foi por muito o homofóbico mais poderoso da República, e muitas vezes protestava contra o fato de “vê-los aparecer em público”.

Europa centro-oriental, início de 2013: uma geração após o fim do Império do Mal, há um Muro que ainda não caiu. O muro da homofobia, das discriminações, preconceitos e hostilidades contra os diferentes. Minorias contra as quais convém a muitos populistas incitar o ódio, e, infelizmente, a Igreja Católica, órfão daquele gênio clarividente e aberto ao mundo que foi Karol Wojtyla, muitas vezes é cúmplice ou inspiradora dos venenos.

“Não estamos na Rússia da repressão homofóbica brutal, diferenciemos bem”, adverte Krystian Legierski, um dos mais proeminentes ativistas gays da Polônia, da organização pelos direitos LGBT (www.lgbt.pl). Mas certas coincidências são ruins: no mesmo dia em que, em Moscou, era aprovada a lei infame sobre a “proibição de toda propaganda gay”, o primeiro-ministro liberal polonês, Donald Tusk, embolsava uma dura derrota. O Parlamento rejeitava três projetos de lei pelo reconhecimento das uniões de fato, homossexuais ou não.

Poucos meses antes, o arcebispo de VarsóviaKazimierz Nycz, lançara um apelo comum com o patriarca ortodoxo russo, Kirill, contra “a recusa dos valores tradicionais, que coloca cada vez mais em discussão os princípios éticos”. Inimigas por séculos, as duas Igrejas se reconciliaram contra os gays.

“Foi desconcertante”, relata Krystian. “No Parlamento, todos os deputados conservadores ou reacionários disseram ‘não’ aos direitos dos gays, remetendo-se à religião, à doutrina católica, segundo a qual a lei poria a família em perigo.

No fim, 46 deputados do partido do primeiro-ministro, embora ele quisesse a lei, também votaram contra”.Na zona rural, no distante leste da “Polônia profunda”, o clima é muito pior. Varsóvia é um outro mundo. “Em cidades como Bialystok, os skinheads enfurecem, as autoridades não investigam, não mexem um dedo. Os ultras atacam a nós, gays, ou os estrangeiros, impunemente. Uma vez, um jovem tchetcheno, lutador de luta livre, conseguiu se defender de seis skinheads que queriam espancá-lo até a morte. O tr

ibunal condenou ele e não eles pela violência. Em geral, volta à vida aqui a convicção de que, se você der direitos a judeus, gays ou outras minorias, você perderá alguma coisa”.

Tem um rosto feio, esquálido e inquietante o último Muro do Leste. “A outra ameaça”, continua Legierski, “são os torcedores violentos: muitas vezes, eles vêm para Varsóvia para expedições antigays, especialmente para tentar ataques contra as paradas gay”. Ao menos na capital, as forças especiais da polícia fazem o seu trabalho.

A discriminação, conta Yga Kostrzewa, ativista lésbica do site Lambdawarszawa.org, começa na escola. “A maioria dos livros escolares sobre moral são homofóbicos. Daí ao bullying, é um pequeno passo, e então, especialmente na zona rural, os homossexuais idosos são os mais discriminados, mas mesmo entre jovens, se você só tiver amigos gays, logo chamam você de ‘bicha’. Uma das nossas associações, a Ilga, publicou no seu relatório anual o mapa do coeficiente de homofobia na Europa. A fronteira Leste-Oeste era traçada claramente: voto negativo para a Polônia, positivo para a República Tcheca, e os melhores votos no Ocidente. Mas, lentamente, a situação melhorou – explicaYga – e agora temos programas na TV pública e privada que contam sobre casais de fato gays com filhos como uma realidade normal”. Uma pedra no sapato do episcopado, que condena as “aberradoras mensagens do Pecado contra a natureza”.

Depois de uma hora de voo a sudoeste, a Praga, a fraqueza da Igreja e o laicismo majoritário moderam a homofobia. Mas políticos proeminentes a usaram com demagogia descarada: Klaus, que insultou a parada gay como um “desfile obsceno”, ao ex-primeiro-ministro Mirek Topolanek, antigamente convidado das festas de Berlusconi na Villa Certosa. Ele atacou um rival como homossexual e judeu, mas pagou, perdendo o posto. E a lei sobre os casais de fato ao menos existe.

O quadro mais alarmante vem da Hungria de Orbán. “Ele está cultivando os novos Breivik. Chama a atenção culpar totalmente judeus e homossexuais, ciganos e estrangeiros”, escreveu recentemente o New York Times. O mais triste, explica Tamás Dombos, líder da ONG Hàttér pela defesa dos gays, “é que antes de Orbán tínhamos leis de vanguarda no Leste, inclusive sobre os direitos de herança e fiscais dos casais de fato, homossexuais ou não. O novo governo ainda não os cancelou, mas a inversão de tendência é total. A nova Constituição só exalta as raízes culturais cristãs e a união entre homem e mulher para ter filhos. Não menciona mais os direitos das minorias. A lei sobre a família rejeitada pela Consulta protegia somente a família oficial heterossexual. Temo que, como fez o ditador stalinista Rákosi, queiram adotar a ‘tática do salame’: o corte de direitos uma fatia de cada vez. Na Fidesz, ainda não falam contra nós, mas a sua homofobia transparece: nas novas leis de direito civil, falam de proteção apenas da família heterossexual, e não mais dos casais de fato”.

Sombras e ameaças sobre os direitos dos gays são insidiosas na Budapeste do autocrata. A organização juvenil do pequeno partido democrata-cristão (Kdnp, aliado da Fidesz de Orbán) marcha pelas ruas gritando “Contra os buzi” (um termo muito vulgar e injuriante).
Guarda Magyar pede todos os dias que “as bichas sejam banidas”. Orbán não apoia, mas acaricia alguns humores, explica Dombos. “Quando um deputado dos ultras de Jobbik, abertamente homofóbico e antissemita, propôs uma lei à la Rússia, três anos de detenção por propaganda homossexual, a Fidesz recusou dizendo ambiguamente que ‘aqueles que vocês querem punir já são punidos pela lei'”.

Para os ultras, violentos, a parada gay é um alvo favorito, diz Gábor Kuszing. “E durante dois anos a polícia proibiu a marcha. Só o recurso ao poder judiciário nos permitiu desfilar”.

Os relatos do horror não param por aí. Ouvir Dombos Kuszing provoca calafrios. “Longe de Budapeste, o medo cresce. E em todos os lugares, até mesmo na capital, a justiça e a polícia minimizam. Quando um comando neonazista atacou com bombas molotov um clube gay cheio de clientes, investigaram-nos por vandalismo, e não por tentativa de massacre que cometeram. Pior do que nunca, Jobbik é forte especialmente entre os jovens. A homofobia pode conquistar uma geração”.

“Entre nós, ideias tradicionais sobre os papéis de homem e mulher, e sobre a ordem social são a base da homofobia, e não a religião”, destaca Dombos. As estatísticas são assustadoras: 58% dos húngaros não gostariam de ter um vizinho gay, 49% rejeitam um colega gay.

“A discriminação contra as minorias, infelizmente, pode ter muitas faces: contra etnias, grupos sexuais, deficientes, e diz muito sobre o estado psíquico e moral de uma sociedade”, constata tristemente Károly Voeroes, ex-diretor do jornal liberal Népszabadság, uma das melhores “grandes penas” independentes.

O problema também pesa na França. Imagine aqui entre nós, onde as tradições democráticas são muito escassas. O Lord Dahrendorf nos disse uma vez que uma ditadura política pode ser desmontada em seis meses, uma economia do Estado, em seis anos, mas para mudar a mentalidade, é preciso três gerações”.

“O silêncio da União Europeia – contra as discriminações e contra autocratas à la Orbán – certamente não ajuda”, observa Dombos. “Ele deveriam monitorar mais os direitos humanos, incluindo os nossos”. Mas outros ativistas gays não têm ilusões: “No máximo – diz o polonês Legierski –, serve o apoio de ONGs europeias. Infelizmente, a Comissão e o Parlamento Europeu no Leste muitas vezes são vistos como um arrogante opressor estrangeiro”.

Fonte: IHU-Unisinos

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“Igrejas legitimaram golpe militar”, afirma pesquisador metodista

Um grupo de onze pesquisadores, especialistas em questões religiosas e ligados à Comissão Nacional da Verdade, vem se reunindo desde novembro em São Paulo. Eles se dedicam a pesquisar as relações entre as igrejas brasileiras e a ditadura militar.

Sob a coordenação de Anivaldo Padilha, metodista e membro do  Conselho Latino-Americano de Igrejas, o grupo trabalha neste momento com a revisão da literatura já existente sobre o tema. Também estão sendo iniciadas pesquisas em arquivos públicos. Numa segunda etapa serão colhidos depoimentos.

Padilha, que, militou na organização de esquerda Ação Popular (AP), foi perseguido, encarcerado e obrigado a se exilar, diz que a literatura existente destaca sobretudo o papel da resistência da Igreja Católica à ditadura. Mas essa seria apenas uma parte da história. Entre as lacunas existentes e que devem ser pesquisadas pelo grupo, aparecem as questões do apoio que as igrejas deram à ditadura, principalmente antes de 1968, e o papel dos protestantes – ou evangélicos – naquele período histórico.

“As igrejas ajudaram a preparar o clima político que levou ao golpe militar de 1964″, diz Padilha.

Na avaliação dele, só houve rompimento com a ditadura em 1968, quando ocorre a institucionalização da tortura e padres começam a ser presos. A seguir, alguns dos principais trechos da conversa com o coordenador do grupo.

 

O relatório do grupo vai focalizar as perseguições que a Igreja Católica sofreu na ditadura?

Já existem muitas pesquisas e informações sobre os setores da Igreja Católica que resistiram à ditadura e sofreram perseguições por causa disso. Temos pouca coisa, porém, sobre a resistência entre os protestantes. Vamos procurar mais informações sobre essa questão.

As igrejas sempre se opuseram à ditadura?

Não. Houve um período em que elas apoiaram. Esse apoio aparece de forma evidente no material sobre a preparação do golpe militar de 1964. Com o clamor anticomunista imposto ao Brasil naqueles dias, as igrejas foram utilizadas como instrumento político a favor do golpe. Ajudaram a preparar o clima que levou à derrubada do governo constitucional. As manifestações da Marcha da Família com Deus pela Liberdade foram  o melhor exemplo disso. Ingenuamente, ou deliberadamente, as igrejas ajudaram a legitimar o golpe. Deram legitimidade religiosa.

E após o golpe?

Os estudos apontam que logo após o golpe não houve diferença entre as ações das igrejas protestantes e a católica: todas continuaram contribuindo para a legitimação da ditadura. Por meio de pronunciamentos e atos oficiais, bispos e cardeais apoiaram os golpistas até o final de 1968, com a promulgação do Ato Institucional n.º 5 e a institucionalização da tortura como método sistemático de interrogatório, a prisão de padres e a implantação de um estado de terror. Foi nesse momento que a hierarquia católica reagiu de forma firme contra a ditadura.

E os protestantes?

As principais lideranças das igrejas protestantes continuaram apoiando o regime mesmo depois do AI-5. Foi só a partir de um determinado momento, já na década de 1970, que começa a haver um fortalecimento da oposição em setores protestantes e a sua aproximação com os católicos. De maneira geral, tanto os católicos quanto os evangélicos, em termos de instituição, tiveram posições dúbias em relação à ditadura. Não se deve ignorar, porém, que desde antes do golpe existia um setor ecumênico que apoiava as reformas de base que vinham sendo discutidas no Brasil e que se opunham à intervenção militar. É preciso aprofundar a análise de todos esses aspectos.

A hierarquia católica na Argentina também apoiou a ditadura. Foi diferente daqui?

Na Argentina, a Igreja Católica manteve seu apoio à ditadura militar do início até o final dela. Houve uma colaboração muito forte com o regime ditatorial, especialmente por meio das capelanias militares. Lá não houve só conivência ou omissão: foi sobretudo colaboração. Os protestantes, talvez pelos sérios conflitos que tinham com as instituições católicas argentinas, se opuseram ao golpe e depois tiveram um papel importante na resistência à ditadura.

Quais as dificuldades do trabalho do grupo de pesquisadores?

Nosso campo de pesquisa e investigação é muito amplo. Não vamos ter condições de cobrir essa amplitude, nem do ponto de vista geográfico, nem temático, dentro do prazo previsto. As igrejas estavam presentes em toda a extensão territorial do País. Teremos que fazer escolhas, buscar os casos emblemáticos, mais representativos do comportamento das igrejas.

O senhor foi perseguido?

Sou metodista e participei do movimento ecumênico que, desde a década de 50, vinha discutindo politicamente reformas para o Brasil. Eu defendia as reformas de base reivindicadas em 1964. Por causa de minhas posições políticas e de minha militância na AP, fui preso em 1970 e permaneci um ano na prisão. Após ser libertado, tive que viver na clandestinidade até 1971, quando o cerco se fechou e fui obrigado a sair do Brasil.  Passei pelo Uruguai, Argentina, Chile. Com o apoio do mundo ecumênico internacional, mudei para os Estados Unidos, onde vivi durante quase oito anos e, depois para Genebra, passando a atuar no Conselho Mundial de Igrejas.

 

Fonte: Roldão Arruda, no Estadão e republicado no PavaBlog

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