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Sobre eleições, política e democracia

Alexandre Bahia

Professor do IBMEC-BH e UFOP

Em Política se ganha e se perde, faz parte do “jogo”. Jogo este que tem regras previamente dadas, logo, quem perde pode falar algumas coisas, mas não pode reclamar do próprio jogo.

Em Democracia nunca se perde. Quem votou em “A” e quem votou em “D” (e quem, por objeção de consciência, não votou em ninguém) não perdeu e sim ganhou!!!!

Já disse outra vez e repito: ELEIÇÃO NÃO É CORRIDA DE CAVALO!

Tod#s ganhamos com mais essa eleição pelo simples fato de que TIVEMOS ELEIÇÕES!!! Isso no Brasil que é algo tão raro (ainda) e, por isso, precioso!

Consigo entender a tristeza de quem apoiou um/a candidato/a que tenha “perdido”. Contudo, essa tristeza não pode se converter em (mais) ódio, em crítica à democracia ou em críticas racistas/discriminatórias contra o “outro” que votou no/a candidato/a que “venceu”. Aí sim é a democracia quem está perdendo!!!!

Outra questão que eu queria lembrar é o seguinte: a legitimidade da vitória está no fato do/a vencedor/a ter tido mais votos em seu favor, não importa se foi um ou se foram um milhão. Isso faz parte, mais uma vez, do “jogo” da democracia. Política talvez seja uma “caixinha de surpresas” como me disse uma amiga cujo candidato não logrou “vitória”, contudo, estamos aí nas regras do “jogo”.

Contudo, queria lembrar a tod#s que quem “perdeu” foi um candidato mas não um ideal. Não só a democracia venceu mas é importante lembrarmos que o projeto do/a candidato/a que “perdeu” continua vivo naqueles/as que o/a apoiaram!

Daí parto para minha última consideração: ontem se definiram as eleições mas a política não acontece somente ali. Ela continua em todos os lugares. No respeito aos direitos fundamentais, na exigência de cumprimento das promessas políticas – não importa que sejam as promessas do “outro candidato”, se você concorda com elas, então cabe a você cobrá-las, isso é democracia também. No que me toca sou o primeiro a guardar aqui no meu computador cada uma das promessas, compromissos e planos e estarei, como sempre estou, fazendo “política”: cuidando dos negócios dessa “pólis Brasil”; cobrarei cada ponto prometido e criticarei se/quando os mesmos não forem cumpridos de forma adequada.

Que voltemos nossos olhos para o Legislativo, pois numa democracia é ele que é (deveria ser) o centro de nossas atenções. É ali que os grandes destinos serão traçados. É (também) para lá que devemos voltar nossos olhos e nossas cobranças.

Uma última palavra. É hora de esfriarmos os ânimos. Não há luto na vitória da democracia. Há luto no golpe, na ditadura. Todos os jornais, revistas, rádios, TV’s, redes sociais estão aí, funcionando. Congresso e Tribunais também. Não há, NENHUM político nas várias casas que não tenha sido posto por nosso voto. E aí é importante lembrar: seja nosso voto a favor, contra, neutro. Todos/as estão ali por nosso voto e, logo, são servidores públicos (lato senso) que precisam ser cobrados para que seus atos sejam condizentes com o mandato que lhes foi atribuído.

Uma versão ampliada desse texto foi publicada em co-autoria com Dierle Nunes em: http://justificando.com/2014/10/27/eleicao-nao-e-corrida-de-cavalo-sobre-absurdas-propostas-separatistas-e-o-luto-de-alguns/

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O velho Sul volta ao moderno Partido Republicano nos EUA

Nenhum outro partido deu um tal giro de 180º na história norteamericana. Fundado como partido do Norte antiescravagista e comprometido com a implicação do governo em incentivar a economia, o Partido Republicano, de Mitt Romney (foto), hoje é a negação dos republicanos de Abraham Lincoln. Aquecimento global? Evolução? Causas da homossexualidade? Como são feitas as crianças? Busque uma sólida conclusão científica e encontrará um importante número de republicanos – carregados de pseudociência e fé – que se opõe a ela.

O artigo é de Harold Meyerson.

Harold Meyerson (*)

Washington – Os candidatos republicanos podem fazer seus discursos desde Massachusetts e Wisconsin, mas Mitt Romney e Paul Ryan encabeçam o partido político norteamericano mais sulista desde os dias de Jefferson Davis (presidente da Confederação escravagista e separatista que provocou a guerra civil entre 1861 e 1865). Em sua hostilidade contra as minorias, a exploração do racismo, antipatia frente ao governo e suspeição sobre a ciência, o Partido Republicano de hoje representa as piores tradições dos pântanos mais frios e úmidos do Sul.

Nenhum outro partido deu um tal giro de 180º na história norteamericana. Fundado como partido do Norte antiescravagista e comprometido com a implicação profunda do governo em incentivar a economia (cessões de terrenos a universidades; a Homestead Act, lei de concessão de terras para seu cultivo, de 1862; a ferrovia transcontinental), o GOP (Grand Old Party, apelido habitual do Partido Republicano) de hoje é a negação dos republicanos de Abraham Lincoln. É quase inteiramente branco: cerca de 92% comparado a 58% entre os brancos. E é desproporcionalmente sulista: cerca de 49% dos republicanos vivem no sul, contra 39% dos democratas.

As crenças e valores do Sul branco dominam o pensamento republicano. Conforme diminui a parte branca da população norteamericana e aumenta o número de latinos, os republicanos aprovaram leis draconianas contra a imigração e se opuseram a uma legislação que permitia aos imigrantes que chegaram aos EUA quando crianças conseguir um status legal. Além disso, exploram os ressentimentos legais de um modo que não se via desde o anúncio de Willie Horton em 1988 [1]. Veja-se a campanha de comerciais de Romney que atacam falsamente o presidente Obama. “Com o plano de Obama, não seria preciso trabalhar nem se preparar para um emprego”, proclama um desses anúncios. “Simplesmente te mandam um cheque de assistência social”. O plano de Obama, como informaram os observadores dos meios informativos que comprovam os fatos, não supõe nada parecido.

O comercial tenta ressuscitar claramente o tipo de ressentimento dirigido contra os afroamericanos que o GOP explorava naqueles dias em que a assistência social representava um programa de envergadura. A campanha de Romney chegou evidentemente à conclusão, posto que toda sua base de eleitores potenciais é branca, de que deve motivar com esses recursos aqueles que entre eles votam às vezes, o que explica por que estão divulgando estes comerciais mais do que qualquer outro.

Na coluna anti-governamental, o orçamento desenhado por Ryan, que os republicanos da Câmara adotaram de modo entusiasmado, cortaria desproporcionalmente os impostos dos ricos e deixaria pela metade a parte de gasto correspondente a todos os programas internos que não são de ajuda social. Isso dizimaria a educação, o transporte, o financiamento de estudantes universitários e a pesquisa científica. Levaria o país aos níveis de desenvolvimento dos Estados do Sul de antigamente, contrários aos impostos e ao investimento público.

Os fantasmas de Dixie (nome popular do velho Sul) – do julgamento de Scopes (julgamento de um professor, em 1925, que ensinava a Teoria da Evolução no Tennessee) e da falta de financiamento da educação pública – aparecem também na premeditada resistência dos republicanos à ciência e, de modo mais amplo, ao simples empirismo. Aquecimento global? Evolução? Causas da homossexualidade? Como são feitas as crianças? Busque uma sólida conclusão científica e encontrará um importante número de republicanos – carregados de pseudociência e fé – que se opõe a ela.

O que é notável não é que um número significativo de republicanos albergue estas crenças, mas sim que elas tenham acabado dominando o partido. Os políticos veteranos do GOP mais pluralista que ainda existia até bem pouco tempo, entre eles Orrin Hatch e o próprio Romney, tiveram que renegar seu passado assim como os “apparatchik” comunistas durante a Revolução Cultural. Um empirista? Eu não, tio.

Mas como aconteceu que o Sul tenha chegado ao Norte, no Partido Republicano de hoje? O fato de que Barack Obama seja nosso primeiro presidente negro coincide com a transformação dos Estados Unidos de uma nação de maioria branca em um país multirracial que já não está destinado a manter sua hegemonia mundial. Acrescida por uma intratável recessão que tem suas raízes em uma crise do capitalismo, esta mudança de época convocou as sombras do ressentimento racial. Tanto quanto os republicanos possam pintar o governo como servidor desta América não branca em ascensão (precisamente o propósito dos anúncios de Romney), a antipatia do Sul em relação ao governo pode encontrar um público receptivo em outras regiões.

Essa transformação do Partido Republicano também foi estimulada pela “sulistização” da economia. O setor dominante da economia norteamericana já não é o da manufatura sindicalizada do Nordeste e Meio Oeste, entre cujos dirigentes se encontravam republicanos moderados como George Romney (pai de Mitt) e cujos empregados brancos de classes trabalhadoras persuadiam seus sindicatos para que apoiassem candidatos democratas. Pelo contrário, a economia está dominada por uma mistura de setores de baixa renda, pequeno comércio não sindicalizado e serviços, e pela alta finança, que se mostrou ferozmente opositora à regulação fiscal, disposta a proteger seus lucros no estrangeiro às custas dos trabalhadores norteamericanos e a investir pesadamente em um partido que defende esses interesses.

Esse partido é o que se reuniu em Tampa na semana passada. Atrás de toda essa retórica autojustificativa, resta um Partido Republicano cujo credo existencial é: “Somos velhos, somos brancos e queremos que nos devolvam nossa país”. O resto, como dizem os sábios, é conversa fiada.

[1] O anúncio em questão comparava a atitude sobre a delinquência dos dois candidatos às eleições presidenciais de 1988, George H. Bush (pai) e Michael Dukakis, apresentando desfavoravelmente a Dukakis, governador de Massachusetts, supostamente por conceder liberdade provisória, nos finais de semana a Willie Horton, condenado a prisão perpétua pelo assassinato de um menino durante um assalto.

(*) Harold Meyerson, colunista do The Washington Post e editor geral da revista The American Prospect.Vice-presidente do Comitê Político Nacional de “Democratic Socialists of America” e, segundo sua própria definição, “um dos dois socialistas que podem ser encontrados caminhando por Washington”.

Fonte: Carta Maior

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