“Entenda mais sobre os reais motivos do genocídio imposto ao povo guarani- kaiowá com essas duas matérias publicadas no início de 2012 no jornal e na TV Diplomatique:

Português: Anastácio Peralta, da liderança Gua...

1.  Documentário – “À sombra de um delírio verde” – denúncia contundente da ação das transnacionais do agronegócio da cana-de-açúcar e seus efeitos no contexto de violência no estado

Na região Sul do Mato Grosso do Sul, fronteira com Paraguai, o povo indígena com a maior população no Brasil trava, quase silenciosamente, uma luta desigual pela reconquista de seu território.

Expulsos pelo contínuo processo de colonização, mais de 40 mil Guarani Kaiowá vivem hoje em menos de 1% de seu território original. Sobre suas terras encontram-se milhares de hectares de cana-de-açúcar plantados por multinacionais que, juntamente com governantes, apresentam o etanol para o mundo como o combustível “limpo” e ecologicamente correto.

Sem terra e sem floresta, os Guarani Kaiowá convivem há anos com uma epidemia de desnutrição que atinge suas crianças. Sem alternativas de subsistência, adultos e adolescentes são explorados nos canaviais em exaustivas jornadas de trabalho. Na linha de produção do combustível limpo são constantes as autuações feitas pelo Ministério Público do Trabalho que encontram nas usinas trabalho infantil e trabalho escravo.

Em meio ao delírio da febre do ouro verde (como é chamada a cana-de-açúcar), as lideranças indígenas que enfrentam o poder que se impõe muitas vezes encontram como destino a morte encomendada por fazendeiros.

À Sombra de um Delírio Verde

Tempo: 29 min; Países: Argentina, Bélgica e Brasil; Narração: Fabiana Cozza; Direção: An Baccaert, Cristiano Navarro, Nicola Muñoz

Site oficial:  www.thedarksideofgreen-themovie.com e facebookwww.facebook.com/pages/THE-DARK-SIDE-OF-GREEN/132106013477766?ref=ts

2.  Entrevista “É no canavial que a gente vê a cara do diabo”, com um dos diretores do filme, Cristiano Navarro:

Documentário À sombra de um delírio verde denuncia a presença de transnacionais no massacre dos índigenas kaiowá no Mato Grosso do Sul

por Renato Santana

Logo após o nascer do sol no acampamento Tekoha Guaiviry do povo guarani kaiowá, no dia 18 de novembro, um bando armado tomou de assalto a comunidade. Era o início de mais um episódio de violência contra os indígenas na região sul de Mato Grosso do Sul, estado com a segunda maior população originária do país – 75 mil – e líder em assassinatos de índios. Segundo relatos de indígenas, esse novo massacre terminou com a execução do cacique Nísio Gomes e o sequestro de seu corpo pelos pistoleiros.

O jornalista Cristiano Navarro conhece bem tal realidade. Atuou junto aos guarani, residindo em Mato Grosso do Sul durante quase três anos, entre 2006 e 2009, e viu de perto massacres tão covardes e violentos quanto esse. Foi nos canaviais das fazendas instaladas em territórios tradicionais dos guarani kaiowá que o jornalista encontrou foco para, com a repórter belga An Baccaert e o cinegrafista argentino Nicolas Muñoz, realizar o documentário À sombra de um delírio verde, denúncia contundente da ação das transnacionais do agronegócio da cana-de-açúcar e seus efeitos no contexto de violência no estado.

Por esse fio condutor, os diretores comprovam que a realidade de fome, miséria, morte, resistência e luta pela terra dos kaiowá está atrelada aos efeitos da ação devastadora de um modelo de desenvolvimento que serve de combustível ao capital nacional e internacional. “É lá [nos canaviais] que os guarani kaiowá se alcoolizam, se matam e são escravizados. São os filhos desses trabalhadores que morrem de fome. É na sua terra, com sua água e com seu suor que o combustível é produzido”, diz Navarro na entrevista a seguir.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Como surgiu a ideia do documentário e a quais realidade e conjuntura ele está submetido?

CRISTIANO NAVARRO – Em 2008, uma comissão internacional da Fian [sigla em inglês de Rede de Ação e Informação pelo Direito a se Alimentar] foi a Mato Grosso do Sul verificar a questão das violências contra os guarani kaiowá na região de Dourados, especialmente a situação de subnutrição das crianças. Poucos meses antes havia ocorrido o massacre de Kurusu Amba, pior do que o que aconteceu na semana passada. Nele, homens e mulheres foram mortos, feridos e, ainda por cima, injustamente presos. Bem, acompanhavam a comissão internacional An, uma jornalista belga, e Nico, um cinegrafista argentino. Foi aí que tivemos nosso primeiro contato e rapidamente acordamos em fazer o documentário.

DIPLOMATIQUE – Qual foi a metodologia utilizada para fazer o filme?

CRISTIANO NAVARRO – Nós partimos para as filmagens sem um roteiro predefinido. O que tínhamos era a vontade de filmar e a situação grave para abordar. Como base para as filmagens e entrevistas, utilizamos os relatórios de violações de direitos indígenas publicados pelas entidades de apoio e as orientações das lideranças e professores guarani kaiowá. Por fim, havia minha experiência de fazer reportagens na região, o que ajudou a definir o roteiro e a edição final.

DIPLOMATIQUE –   Por que a escolha das plantações de cana-de-açúcar como linha da construção retórica da produção? Qual é o impacto da ação das transnacionais do agronegócio entre os indígenas?

CRISTIANO NAVARRO – Poderíamos ter falado do boi, da soja ou de todas as outras culturas que são tão maléficas aos guarani quanto a cana. Mas o filme busca uma leitura dialética. E é no canavial que a gente vê a cara do diabo. É lá, naquele trabalho, que os guarani kaiowá se alcoolizam, se matam e são escravizados. São os filhos desses trabalhadores que morrem de fome. É na sua terra, com sua água e com seu suor que o combustível é produzido. Numa terra que não tem mais árvore nenhuma e que de noite queima em chamas. É com esse inferno que as transnacionais enriquecem gente daqui, dos Estados Unidos, da Europa, da China e de não sei onde. São esses diabos que esse governo de babacas chamou de heróis.

DIPLOMATIQUE – A região sul de Mato Grosso do Sul, onde se passa À sombra de um delírio verde, foi nomeada pela vice-procuradora da República, Deborah Duprat, como uma das principais tragédias humanas envolvendo indígenas de que se tem notícia no mundo. Que tragédias o documentário revela e por quais razões elas acontecem?

CRISTIANO NAVARRO – As tragédias são de todas as ordens: assassinatos, desnutrição infantil, trabalho escravo, desassistência, falta de perspectiva. E as razões são realmente profundas. Vêm do nosso colonialismo. Da ideia de evolucionismo cultural que ensinam para as crianças nas escolas, que a história começa com a escrita ou que a democracia nasceu na Grécia e vem evoluindo até os dias de hoje. São essas coisas que servem de combustível para a ganância, para o preconceito, para o ódio. Nas cidades próximas às aldeias, as pessoas odeiam os índios sem nunca ter trocado uma palavra com eles. É assim, não sabem o porquê, apenas odeiam e pronto!

DIPLOMATIQUE – A versão de À sombra de um delírio verde em HD para a internet foi lançada dias depois de mais um massacre contra os guarani kaiowá da comunidade Tekoha Guaiviry, no último dia 18 de novembro. O documentário mostra que há décadas tais massacres são constantes, tanto que nos últimos oito anos mais de duzentos indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul. Por que tal realidade é intermitente?

CRISTIANO NAVARRO – Essa realidade é fruto de conflito desigual, em que praticamente tudo é desfavorável, sobretudo o Poder Judiciário, que não pune os assassinos de lideranças. Mas veja bem, os guarani enfrentaram os exércitos de Espanha e Portugal, em seu apogeu como império, por mais de 150 anos. Eles resistiram bravamente e escreveram uma das mais belas, se não a mais bela, histórias de resistência de nosso continente. O problema hoje é que a resistência continua, o Estado e o poder econômico permanecem colonialistas, mas a correlação de forças piorou. Pois as comunidades estão ultrafragilizadas, sem seu espaço, sem ter como fazer suas roças, plantar o que comer; isso tira qualquer poder de reação autônoma dos guarani kaiowá.

DIPLOMATIQUE – Há um trecho em que é mostrado um indígena assassinado. Como foi fazer essa cena e lidar com tamanha violência, posto que durante o período em que o filme foi rodado estão os maiores índices de mortes – não só resultado de assassinatos, mas também de desnutrição, fome, doenças?

CRISTIANO NAVARRO – Foi difícil… Aliás, é difícil. Porque essas cenas reaparecem, e não como fantasmas na minha cabeça ou no documentário. Elas ressurgem em casos como o que vimos semana passada e chocam as pessoas por um tempo, mas logo em seguida somem e depois reaparecem com a mesma crueldade. Como se fosse um pesadelo que leva nossa sociedade a um trauma de infância.

DIPLOMATIQUE – Os acampamentos também são outra dura realidade mostrada no documentário. De 2009 para cá, eles saltaram de 22 para 31 – abrigando 1.200 famílias às margens de rodovias. Quais são as consequências disso para a vida dos indígenas?

CRISTIANO NAVARRO – Na verdade, os acampamentos já são uma consequência da questão central. Pois com ou sem o reconhecimento dos territórios por parte do governo, os guarani kaiowá precisam voltar para sua terra, seja por falta de espaço nas reservas que estão superlotadas e onde a vida se tornou inviável, seja porque os caciques mais velhos percebem que estão morrendo e querem retornar para o lugar onde nasceram. De qualquer forma, a vida nos acampamentos é ainda pior que nas aldeias, por causa dos crimes de pistolagem aos quais as pessoas estão expostas e da total falta de assistência do governo federal, como é o caso da Funasa [Fundação Nacional de Saúde, que atualmente está em transição para a Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai], que muitas vezes se nega a atender os doentes desses acampamentos.

Renato Santana – Jornalista

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