O que entendo por verdade – Ricardo Gondim

O que entendo por verdade

Ricardo Gondim

Entre os diversos constrangimentos que passei nos últimos anos, o mais aborrecido aconteceu em um restaurante. Fui a um almoço achando que era um encontro de amigos. Na verdade, não passou de pretexto para uma sabatina. “Você acredita que existe a verdade?”. A pergunta, feita entre uma conversa trivial, pretendia ser um xeque mate. Se respondesse sem gaguejar, passaria no teste. Se hesitasse, seria escanteado. Não sei o que meu companheiro pensou. Mas aquela foi a última ceia junto daquele que eu considerava, minimamente, um amigo.

De lá para cá, ainda estou em dúvida: o que ele pretendia? Eu lhe disse que  fujo da pretensão de que existe uma verdade “pura”. Que está dada e que espera que eu descubra como um Colombo. Não guardo qualquer pretensão de  chegar à verdade absoluta sobre qualquer coisa. No estudo exaustivo de qualquer tema, apenas escancaro a minha ignorância.

Ninguém sabe tudo sobre Machado de Assis,  matemática, física quântica ou futebol. O arroubo teológico de possuir a verdade pela correta dissecação de um texto bíblico é tontice. Não há nenhum sistema que abarque a verdade sobre Deus.

Ao preocupar-me com problemas éticos e práticos de meu compromisso humano,  saberei me manter flexível nos pressupostos teóricos. Ao lidar com pessoas reais, que vivem problemas reais, que fazem perguntas reais, reconhecerei que a vida transborda para além dos sistemas de pensamento.

Teologar é assumir compromisso de jamais considerar que as afirmações teóricas estão acima da vida. As questões “duras” de nossa contemplação devem coincidir com as que  dizem respeito às pessoas. Que as pessoas nos intriguem, não teorias livrescas. O teólogo tem que ser, antes de tudo, um realista. Realismo: esforço de trazer para perto da vida, coração e mente; isto é, emoção e razão. O Logos, o Verbo, se fez carne. No cristianismo vimos, tocamos e cheiramos a verdade encarnada, não pensada.

O conhecimento do Verbo não se restringe ao racional. Ele foi uma pessoa. O conhecimento de Deus extrapola o cogito moderno. Cristianismo é sinônimo de compromisso, comunhão, solidariedade e busca da justiça. A obediência da fé tem mais possibilidade de compreender os mistérios de Deus que o estéril exercício da racionalidade.

Teologia não se algema à letra do texto. O texto, analisável gramaticalmente, mata. Certas verdades só são captadas pelo espírito. Elas pulsam na esfera da sensibilidade. Só com um novo nascimento, uma iniciação indescritível, vê-se o que está no sobrenatural. Para apreender o mistério divino é preciso nadar no rio que não dá pé. Encontram Deus os que voam com asas de águia. O Espírito batiza, mergulha no amor aqueles que buscam a Deus..

Só arranhamos a superfície do conhecimento de Deus, mesmo quando caem viseiras espirituais, rasgam-se máscaras da soberba e rompem-se vícios da linguagem.

Teologia não dá livre acesso ao sucesso. Quem acredita nisso vira carreirista; e seu fim será a perversidade. É preferível a discrição ao aplauso, o exílio aos holofotes. Melhor amargar o abandono a conviver com gente que embarca no sucesso passageiro das ideias simplórias.

Não se faz teologia para gerar adeptos, mas para transformar o próprio teólogo. O processo que articula ideias sobre Deus não pode desencadear intolerância, soberba, exclusivismo. Essa sabedoria merece ser descartada como demoníaca.

Teologia não pode ensimesmar. Pensar com liberdade significa vigiar para que vantagens, amparos, privilégios, não impeçam a alma de ser compassiva. É fácil abstrair sobre o sofrimento universal enquanto se vive em zona de segurança.

Se o projeto de Deus para a humanidade inclui o câmbio de corações de pedra em corações de carne, então que o processo comece por aqueles que compreenderam essa verdade. O teólogo molha os textos de lágrimas, impregna seu discurso com misericórdia, calça a história de ternura.

Conhecer a verdade significa dispor-se a caminhar ao sabor do vento; atirar-se a um navegar impreciso, trabalhar constrangido pelo amor e vivificado pela graça. O bom pensador enlaça a fragilidade com a bem-aventurança da mansidão –  e com ela herda a terra.

Desde aquele dia ainda não sei se consegui contentar o meu interlocutor no almoço. Agora, com tempo, posso afirmar: em verdades assim eu creio.

Soli Deo Gloria

O que entendo por verdade | Pavablog.

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