Homofobia vs. Virada de Paradigmas – Coluna do professor Alexandre Bahia

Homofobia vs. Virada de Paradigmas

Por Alexandre Bahia

De onde vem a homofobia? É dizer, de onde vem esse sentimento de “aversão contra homossexuais”?

Vivemos um tempo de mudanças no Brasil (e no mundo). Mais do que outras épocas, o tempo presente é de virada, que quebra de paradigmas, do esgotamento das últimas energias utópicas (Habermas), de pluralização e fragmentação frenéticas da sociedades cada vez mais complexas e líquidas (Bauman). Tão complexas que, se um lado, crescem movimentos ateístas/agnósticos, paradoxalmente, crescem também movimentos religiosos e fundamentalistas, ao mesmo tempo também em que aumenta o número de pessoas com “religiosidades independente de igrejas”. Tudo isso bem na grande onda da hiper-informação proporcionada pela Globalização e pela Internet.

Nunca se teve tanto acesso à informação, de forma que antigas “amarras” que governos e conglomerados de mídia ou de religião antes impunham se mostram frouxas diante da fluidez com que informações, críticas, debates e manifestos circulam por redes sociais, e-mails, bate-papos, etc.

Bom, num cenário assim valores “tradicionais” como o conceito burguês de família e de relacionamentos amorosos tendem a entrar em crise. Vejam que o modelo atual de família que conhecemos (pai, mãe casados e seus vários filhos) é uma invenção dos séculos XVIII e XIX. Foi criado na Revolução Industrial e se constitui, em nível micro, de forma similar à lógica (re)produtiva das indústrias. Famílias também produzem riqueza e esta deve ser preservada e frutificada. Daí os tabus quanto ao casamento (única forma segura de transmissão de bens), de virgindade da mulher (única forma de se assegurar os bens, ao mesmo tempo que um bom “negócio” quando ainda existiam os dotes – por exemplo, mencionados no Código Civil de 1916). Num cenário assim, relacionamentos homoafetivos são tão contraproducentes quanto a perda da virgindade da donzela. Ora, em tais relacionamentos não há “produção” de filhos, não há continuidade da cadeia de transferência de bens!

Daí vieram as teorias da ciência (a partir das quais a religião apenas se apropriou) sobre a homossexualidade como um “desvio” ou algo “antinatural”. Essa mesma ciência que um dia “provou” que europeus eram superiores aos africanos na escala civilizacional (é o chamado “darwinismo social), o que retroalimentava doutrinas religiosas cristãs – católicas e protestantes – sobre a “natural” inferioridade dos negros face os brancos. Nos EUA isso foi conhecido como “pro-slavery arguments”, como dissemos, igualmente sustentado pela ciência como pela religião.

Ora, se boa parte do que falamos acima sobre a lógica ‘produtiva’ de família já não vale mais, como a virgindade ou o casamento como vínculo eterno (ou como a única forma de união); por que, então, mantemos o mesmo raciocínio no que toca às relações homoafetivas? Já viramos algumas páginas para o passado, por que não viramos outras?

As passagens de paradigmas contêm em si seus paradoxos e continuidades. Um paradigma novo normalmente não joga de escanteio todas as estruturas do anterior.

Mas é preciso jogar luz sobre isso: as bases sobre as quais a homofobia foi construída já ruíram. A ciência já não mais afirma que a homossexualidade seja um “desvio”. Vários segmentos cristãos também não. Quero crer que aqueles que ainda insistem na homofobia o fazem por 2 razões: falta de conhecimento e/ou de convivência. Para o primeiro, os meios de acesso à educação estão aí, à disposição. Para o segundo, é bom que se diga que mitos e “pré-conceitos” não resistem à convivência, uma vez que “mitos” mostram seu caráter de “fábula” e “pré-conceitos” não resistem a conceitos formados pela (com)vivência do dia-a-dia.

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